Mais uma vez, nesse início de ano, a cidade de São Paulo e sua população foram castigadas pelas enchentes. Nenhuma surpresa. Naturalmente começa-se a falar muito sobre o assunto e a pergunta “como acabar com as enchentes?” passa ser repetida exaustivamente até ser esquecida junto com o fim das chuvas – período em que a gente começar a reclamar do ar poluído, afinal é a chuva que ajuda a limpar a cidade. Assim, a questão das enchentes fica esquecida até o verão seguinte…

Mas antes de falar em acabar com as enchentes é preciso entender os processos que levam as inundações que causam tanto prejuízos. A charge abaixo foi muito compartilhada nesses dias e traz uma importante reflexão: o rio que existia foi aterrado, o seu leito foi ocupado e quando as casas ficam embaixo d’água o empreendedor ainda fica com a cara que não entendeu nada!

Mesmo com todo exagero típico de uma charge a questão não deixa de ser essa, a grosso modo.

A impermeabilização das superfícies aumenta o volume e o pico da vazão das águas pluviais que são direcionadas por um sistema de galerias muitas vezes subdimensionados até acabar em um rio estrangulado por construções ao redor da sua antiga área de inundação.

Comparem o retrato da várzea do Carmo feito em 1982 pelo artista Benedito Calixto e uma foto recente da região!
       

Benedito Calixto de Jesus – Inundação da Várzea do Carmo (1892) 65 mil habitantes na época .
Foto da Várzea do Carmo tirada em 1981.

Podemos construir piscinões e mais piscinões para armazenar o excesso de água e até resolver o problema pontualmente, mas a verdade é que acabar de vez com as enchentes é praticamente inviável! Os ciclos de cheia fazem parte da natureza do rio e a urbanização altera o ciclo da água em modo a intensificar o problema.

A questão, ao meu ver, não é falar em “acabar com as enchentes”, mas em “como enfrentar as enchentes”. É importante dar a devida atenção as medidas não estruturais, da manutenção das bocas de lobo até a ampliação do sistema de alerta que já existe em algumas regiões, desenvolvendo modelos meteorológicos os mais confiáveis possíveis. E, principalmente, é necessário mudar a visão atual da gestão de drenagem urbana, devemos olha a cidade de forma integrada e incentivar as práticas sustentáveis de drenagem* favorecendo o manejo das águas pluviais na fonte e garantindo assim uma vazão condizente com aquela de pré-urbanização para não sobrecarregar o sistema.

Inclusive, seguindo a tendência mundial no assunto, o Manual de Drenagem e Manejo de Aguas Pluviais de São Paulo lançado em 2012 já trazia o conceito de vazão de pré-urbanização, mas até hoje esse critério ainda não foi convertido em legislação.

Já ouvi nos bate papos de café que ações de drenagem urbana normalmente não são as meninas dos olhos de políticos pois se trata de um problema que acontece apenas um pequeno período do ano e que ao ser “resolvido” com obras que ficam embaixo da terra acabam sendo esquecidos e não gerando retorno…  Fica então o conselho para a população de não esquecer essa questão, de participar ativamente nos conselhos participativos das subprefeituras e cobrar as ações necessárias, haja visto que da mesma forma que sabemos que este período de chuvas intensas está para acabar sabemos que no ano que vem começará tudo de novo.

*Recomendo a leitura do meu primeiro post no Blog da ConstruLigaConheça as práticas de drenagem sustentável.