Lina Bo Bardi e o Vermelho Bombeiro do MASP

Apesar de morar há muitos anos no bairro do Morumbi, em São Paulo, e da minha paixão pública pela engenharia e arquitetura, só recentemente visitei a Casa de Vidro acompanhado pela minha esposa. A Casa, o primeiro projeto brasileiro da inesquecível arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, foi construída no local onde existia uma antiga fazenda de chá. É importante lembrar que esta foi, também, a primeira casa construída no bairro do Morumbi e serviu de residência para o casal Pietro Maria Bardi e Lina Bo Bardi. Durante quatro décadas, foi um ponto de encontro histórico também por ter sido ponto de encontro de artistas e intelectuais.

A imponente fachada de vidro sobre pilotis foi implantada aproveitando o perfil natural do terreno e explorando materiais como vidro, aço e concreto. Trata-se de um ícone da arquitetura moderna no Brasil e uma das quatro casas de vidro projetadas por grandes arquitetos internacionais do século XX. O imóvel foi tombado pelo CONDEPHAAT em 1987.

A Casa de Vidro, o primeiro projeto brasileiro da inesquecível arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, foi construída no local onde existia uma antiga fazenda de chá

Durante a visita, me peguei várias vezes olhando através dos imensos painéis de vidro do piso ao teto e imaginando como teria sido ainda mais bela a vista daquele ponto alto, com vista para o Rio Pinheiros e região dos Jardins. Naquela época, a Zona Sul de São Paulo era dominada pela Mata Atlântica, e a cidade estava se desenvolvendo do outro lado do Rio Pinheiros. A casa, um ícone arquitetônico que abriga hoje o Instituto Bardi, com acervo composto por textos, fotografias, documentos, anotações, maquetes, móveis e objetos de arte do casal, está aberta a visitas guiadas de até uma hora. Clique AQUI para agendar um horário.

Uma lembrança que liga à outra

A visita à Casa de Vidro resgatou do fundo da minha memória, com clareza e riqueza de detalhes, os encontros que tive com a arquiteta Lina Bo Bardi para algumas reuniões, onde discutimos detalhes da recuperação, reforço e proteção da estrutura de concreto armado e protendido do MASP – outro importante ícone da cidade de São Paulo.

Afinal, Bo Bardi concebeu o projeto arquitetônico do Museu em um terreno doado ao município de São Paulo desde que respeitássemos uma condição: a vista do centro da cidade deveria ser mantida.

O corpo principal do prédio, com vão livre de 74m, está apoiado sobre quatro pilares laterais vazados, de 2,5m x 4m, que recebem uma carga de 9.200tf, transmitida por quatro grandes vigas protendidas localizadas sobre a cobertura do museu. O projeto estrutural foi feito pelo iminente Engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz, ex-prefeito de São Paulo.

MASP durante sua construção

O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, ou carinhosamente MASP, localizado na imponente Avenida Paulista, foi construído entre 1956 e 1968 e inaugurado em novembro de 1968, com a ilustre presença da Rainha Elizabeth II, da Inglaterra.

O grande articulador e empreendedor paraibano Assis Chateaubriand, fundador e proprietário dos Diários Associados, então o maior conglomerado de veículos de comunicação do Brasil e uma das figuras mais emblemáticas daquela época, tomou a inciativa de adquirir obras de arte para estabelecer no Brasil um Museu de nível internacional.

As primeiras obras de arte do MASP estavam aportando no Brasil

Com o final da Segunda Guerra Mundial, quando a Europa estava em plena reconstrução, muitas coleções de arte foram postas à venda com preços em níveis inéditos devido ao excesso de ofertas. Para selecionar peças valiosas e autênticas para o acervo do museu, Chateaubriand precisou de apoio técnico especializado e pediu ajuda para Pietro Maria Bardi, marido de Lina Bo Bardi. Pietro, crítico de arte italiano, galerista e jornalista, logo aceitou o convite e garantiu que que não haveria distinção entre as artes. Batizou a nova instituição como “Museu de Arte”, e somente depois se tornou diretor do MASP, cargo que ocupou durante quase meio século.

Uma curiosidade que vale revelar… Chateaubriand pretendia sediar o MASP no Rio de Janeiro, mas optou por São Paulo acreditando que teria mais sucesso para a arrecadação de fundos necessários para a construção do museu.

O MASP é uma das mais importantes instituições culturais brasileiras e possui uma das mais completas coleções de arte ocidental da América Latina. O acervo é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN, e abriga também uma das maiores bibliotecas especializadas de arte do Brasil.

MASP, na década de 80, com sua moderna estrutura em concreto aparente

Obra de reforma do MASP

Em 1999, a edificação passou por algumas reformas. Ganhou reforço estrutural e reprotensão das quatro vigas de sustentação localizadas sobre a cobertura, recuperação da estrutura de concreto, impermeabilização da cobertura, nivelamento e troca de pisos. Os caixilhos foram reformados e os vidros foram trocados com instalação de película de proteção contra os raios ultravioleta. O prédio recebeu outras intervenções para melhoria e modernização dos sistemas de instalações prediais, iluminação, ar condicionado e colocação de um segundo elevador de acesso.

Os encontros com Lina

Minhas reuniões com a Arquiteta Lina Bo Bardi se deram anos antes dessas intervenções, nos últimos anos de vida da arquiteta. Na época, recebi convite de um pequeno comitê de especialistas neste tipo de intervenção, incluindo consultores independentes, representantes da empresa especializada nos serviços de recuperação e reforço estrutural contratada, e ainda do quadro técnico da Prefeitura do Município de São Paulo. O objetivo do comitê era discutir os conceitos e a estratégia adequada para essa importante intervenção.  

Lamento não me lembrar de todos os nomes, mas além da Arquiteta Lina Bo Bardi, me lembro de outros participantes – o amigo Prof. Dr. Paulo Helene e o Eng. Elorci de Lima.

Cabe destacar que antes de minha carreira executiva como dirigente na indústria de produtos para a construção e depois no setor de engenharia, construção e incorporação, me especializei em materiais e técnicas para a recuperação, reforço e proteção de estruturas de concreto. Naquela época dirigia uma indústria britânica no Brasil, líder em produtos especializados para este tipo de aplicação. Também fui palestrante e professor de cursos de especialização nesta área de conhecimento.

O fato interessante é que a preocupação com a estrutura do MASP culminou na identificação da necessidade de intervenção. Uma pequena falha de concretagem nas cunhas de proteção das bainhas dos cabos de protensão das vigas de sustentação da estrutura permitiu a infiltração de água através de vazios em uma das bainhas, com consequente corrosão (não relevante) dos cabos de protensão. A água, de tonalidade amarronzada, em razão dos produtos de corrosão, percolou através de uma fissura na laje de cobertura e começou a gotejar em uma tela do Renoir (“Rosa e Azul”), no meio da galeria principal, causando um enorme incômodo! Este foi o primeiro indício de que algo de errado havia com a estrutura da edificação.

Reuniões difíceis

O grande incômodo da Arquiteta Lina Bo Bardi era, justamente, o sistema de pintura de proteção necessário para evitar novos danos à estrutura do MASP. Na visão dela, e na de muitos arquitetos, qualquer produto que causasse alteração de textura ou brilho da estrutura não deveria ser utilizado. Na época, toda a estrutura do MASP era em concreto aparente, com aspecto superficial conhecido como “formas brutas”, ou seja, os pilares, lajes e vigas apresentavam rebarbas e marcas obtidas pela justaposição das tábuas das formas.

Numa atmosfera urbana como a da cidade como São Paulo, farta em gases de natureza ácida como o Dióxido de Carbono (CO2) e Dióxido de Enxofre (SO2), a carbonatação é um problema comum em estruturas de concreto armado ou protendido não protegidas. Era exatamente o que estava acontecendo com a estrutura de concreto aparente do MASP.

A carbonatação é um fenômeno que provoca a perda da alcalinidade do concreto e, portanto, da capacidade de proteção das armaduras. A consequência pode ser corrosão das mesmas sob determinadas condições de umidade e a presença de heterogeneidades na estrutura.

Depois dos serviços de recuperação estrutural do MASP, para impedir a futura carbonatação, as superfícies deveriam ser tratadas e preparadas, reduzindo significativamente as rebarbas decorrentes da justaposição das formas, corrigindo-se também pequenos defeitos superficiais, para que então toda a superfície de concreto pudesse receber um sistema de proteção competente.

O “Rosa e Azul”, de Renoir

Uma vez confirmado o relaxamento dos cabos de proteção e deformação das lajes foi constatada a necessidade de uma intervenção maior para eliminar as causas do problema, incluindo:

  • Reprotensão dos cabos;
  • Injeção de fissuras da laje inferior;
  • Tratamento de armaduras corroídas dos pilares, lajes e vigas e a execução de reparos localizados nestes elementos;
  • Aplicação de sistema de pintura de proteção competente sobre a estrutura para evitar a futura penetração de elementos agressivos através da mesma, evitando a corrosão das armadura;
  • Impermeabilização da cobertura.

Engenheiros restaurando obras de arte?

Cientes da restrição de Bo Bardi, propusemos um sistema incolor, com duas camadas: um primer hidrofugante que não causaria qualquer modificação nas características superficiais do concreto e uma camada de verniz opaco, para evitar brilho superficial, para evitar a carbonatação.

A arquiteta insistiu muito na utilização somente do primer hidrofugante, mesmo ciente que não teríamos a eficácia necessária. Daí a grande divergência entre o tecnicamente necessário para prover à estrutura da edificação a devida proteção e a exigência da plena preservação das características originais do projeto, como num restauro de uma obra de arte.

Nos momentos mais acalorados da discussão, lembro das palavras da Arquiteta Lina Bo Bardi, sempre elegantemente vestida de preto:

“Vocês, engenheiros, deveriam entender que uma estrutura como a do MASP é uma obra de arte em si. E como nós, humanos, todas as grandes obras arquitetônicas da humanidade, deveriam amadurecer e “morrer” um dia, tornando-se uma ruína, que deveria ser então respeitada historicamente por tudo o que foi e representou”.

Evidentemente, o teor da fala de Bo Bardi trazia à tona a emoção da artista e precisávamos encontrar um ponto de convergência entre o desejado e o razoável para proteger a estrutura recuperada, em prol da durabilidade e bom desempenho da intervenção. Não pudemos deixar de considerar o montante do investimento que seria realizado.

O tal do “Vermelho Bombeiro”

Depois de horas em nossa última discussão, e diante da inflexibilidade do comitê em relação à necessidade da adoção de um sistema de proteção eficaz para a estrutura, a Arquiteta Lina Bo Bardi apresentou o único sorriso que conseguimos extrair de seus lábios desde o primeiro contato. Disse:

“Já sei o que fazer. Me acompanhem”.

Lembro que ela estava com dificuldades de locomoção, então, a acompanhamos até o depósito localizado no subsolo do MASP. Ela nos mostrou uma maquete antiga do museu com os pilares e as vigas de sustentação da cobertura na cor “Vermelho Bombeiro” e decretou: “É isso que vocês vão fazer! A concepção original do MASP foi essa. Ao invés do verniz opaco, pintem então os pilares e as vigas com uma tinta protetora apropriada nesta cor! O Pietro sempre preferiu esta versão!”.

Configuração atual do MASP com pilares e vigas de sustentação

Vermelho Bombeiro

Anos depois, o MASP passou pela intervenção que lhe rendeu o título de ícone de forma renovada e diferente, com pilares e vigas da cobertura na cor… Vermelho Bombeiro!

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